No Estado capitalista a família volta a ser pensada como corresponsável pelo desenvolvimento do cidadão. No âmbito da política social, a família é parceira na reprodução e proteção social dos que estão sob sua tutela, visto que, tanto política social quanto família tem como primeira dimensão a proteção dos seus.
No Brasil temos historicamente uma centralidade no individuo – na mulher –, sob quem recaiu a tarefa de gerir o lar, trabalhar fora para contribuir com a renda, administrar os benefícios das políticas sociais e realizar as ações (cursos, grupos e reuniões) propostas pela política que, visa qualificar ou requalificar para incluir no mercado de trabalho.
Uma realidade que esta centralidade apresentou foi o grande número de movimentos sociais organizados e comandados por mulheres, que tiveram papel preponderante no processo de conquistas sociais, principalmente na criação e implantação da Politica Nacional de Assistência Social – PNAS e do Sistema Único de Assistência Social – SUAS.
Nesta linha de raciocínio, Família e Estado desempenham papeis similares, em seus respectivos âmbitos de atuação, pois regulam, normatizam, impõem direitos e deveres, em uma relação de poder. Assim, podemos nos atrever a dizer que a família, bem como as politicas sociais tem funções correlatas e imprescindíveis na proteção social dos indivíduos.
Na sociedade moderna a família é vista como um lugar de expressão máxima da vida privada, lugar da intimidade, da construção de sentidos e expressão de sentimentos, onde se exterioriza o sofrimento psíquico. Assim, a centralidade das políticas públicas na família traz em seu bojo, o nicho afetivo e de relações que o indivíduo necessita para a sua socialização, visto que, atribui-se a família o desenvolvimento do sentido de pertença e um campo relacional de inclusão a vida em sociedade.
Logo, a família é condição de inclusão social, pois, se o indivíduo possui trabalho e vínculos sociofamiliares, encontra-se incluído, se não possui, está em transito ao processo de desafiliação social, visto que, as vulnerabilidades são reconhecidas quando os tutores modernos, personificados no Estado e no trabalho assalariado estão ausentes. A situação se agrava quando surgem no horizonte social o desemprego, a doença, o envelhecimento e a pobreza.
Portanto, o governo moderno que atende mais aos interesses do capital, deixando em segundo plano o social, busca partilhar responsabilidades com a família, que no momento atual, encontra-se interconectada pelos produtos da tecnologia, mas extremamente vulnerabilizadas em seus vínculos relacionais e afetivos de inclusão e pertencimento.
A saída encontrada é apresentado no SUAS que, traz programas de transferência de renda para manter a subsistência, serviços territorializados como o CRAS, equipes de referencias como a do PAIF, trabalho social com famílias – seja em grupos socioeducativos ou sociorelacionais – na perspectiva de fortalecer a função protetiva da família, proteção social que o Estado capitalista não oferta.
Concluindo esta breve reflexão sobre a família, se faz necessário registrar que a centralidade na mulher lhe causou uma sobre carga e desresponsabilizou a família como sujeito coletivo e tirou da família o que de melhor ela poderia oferecer a vida em sociedade. A família em sua condição de vida intima lugar de encontro humano, de construção de história, de reposição de valores e exercício de poder moral, é condição necessária à vida social, mas como sujeito coletivo.
Por Valdecir Martins
Fonte: ACOSTA, A.R. (org). FAMÍLA: Redes, laços e políticas públicas.